sábado, 14 de maio de 2011

A força de trabalho tradicional

Existem pessoas que passam na vida da gente e valem um conto. Não por terem algo de heróico, não por terem nos ensinado lições de valiosas, mas por serem pessoas com quem não convivemos muito cuja vida conhecemos alguns fragmentos e que lembramos em movimentos rotativos e nos trazem impressões distintas.
Numa cidade no interior de São Paulo vive um homem chamado Chan. Ele possui um irmão mais novo chamado Chan também, já que na China o primeiro nome é o da família. Eles nasceram na China, mas não sei quem ano e circunstâncias saíram de lá. Chan não é casado, não tem filhos. O irmão é dono de um restaurante de comida chinesa cujos pratos e bandejas são de plástico com flores rosas desenhadas na borda. O estabelecimento é pouco movimentado enquanto em outros pela cidade que servem o mesmo tipo de comida exigem reserva . Há um cartaz velho da Bohemia escrito "aqui tem" que foi pichado de canetão vermelho "mentira" e que nunca foi retirado.
O Chan mais velho dá aulas de Tai Chi numa academia de Shaolin Norte, mas ensina Kung Fu em ocasiões em que o mestre e dono da academia está ausente. A academia é uma filial da Sinobrasileira, o professor é discipulo direto do chinês que trouxe o Shaolin Norte para o Brasil (que por acaso também se chama Chan). Mas o Chan de que estou escrevendo não aprendeu shaolin no Brasil, aqui ele não tem mestre. Além das aulas de artes marciais chinesas, outra parte de sua renda vem da clínica de acupuntura.
Ele é de poucas palavras e às vezes tem-se a impressão de que há algum detalhe sombrio em seu passado. Outras vezes ele parece somente um homem se virando para viver fazendo o que sabe, assim como nordestinos vendendo cocada, índios colares de missanga e por aí vai. Ele também tem uma moto e fuma - pois só no Ocidente o cigarro é incongruente à paz de espírito das técnicas orientais. Como todo praticante de artes marciais, Chan não é do tipo condencendente, mas ele é mais seco do que se espera. Não tem muita paciência em ensinar, não sei se gosta, mas talvez esse seja o método chinês. Acredito que ele dê essas aulas porque é o melhor forma de ganhar a vida. Mas digo isso porque acabo comparando-o com o dono da academia que tem outro modo de ganhar a vida e mantêm a academia porque gosta, nem dá lucro, e passa horas a conversar com os alunos e a fazer piadas, fora os churrascos esporádicos que ele marca.
Num dos últimos treinos eu reclamava de dores nos joelhos e perguntei a Chan se ele achava que acupuntura poderia ajudar, no intuito de marcar uma consulta. Ele disse que sim, me fez sentar no tatame, espetou duas agulhas em cada joelho e as ligou numa espécie de bateria, eu olhava atônita. Ele perguntou se eu já havia feito apucuntura antes e respondi que não, ele disse que eu tinha coragem.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mercúrio na casa 12

Eu ainda era uma garota, mas começava a duvidar de tanta coisa que se diz por esse mundo a fora. Gostava de ler, entre outras coisas, o horóscopo, que gerava em mim uma curiosidade quase proíbida que eu imagino ser parecida àquela de querer saber de onde os bebês vem. Chegou um momento em que eu estava em franca dúvida, então perguntei pra minha mãe se ela acreditava nessas coisas. Ela me respondeu que de certa forma acreditava, não nessas do jornal, mas que os astros deviam ter alguma influência na gente: se a posição da Lua interfere nas marés, ela também deve ter influência sobre nós.  
Na ocasião não foi considerado que existe um princípio explicativo na física chamado Lei da Gravidade que explica o fenômeno das marés, mas não a mudança de humor e o comportamento das pessoas.
Da mesma forma que a gravidade, existe uma espécie de princípio climático que afeta não só os oceanos, mas também a personalidade de certos tipos de cabelos. Trata-se da umidade. Morando no cerrado, onde existe a estação das chuvas e da seca, vivo uma situação engraçada, pois parte do ano tenho o cabelo liso e na outra fico cheia cachinhos.
Agora, seria cair em contradição dizer que esses dias ininterruptamente nublados e cinzas me deixam melancólica, introspectiva, com um sono sem fim e um silêncio interior indiferente a tudo?



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Indião

Quando comecei a trabalhar num lugar perto da W3 Sul foi um alívio descobrir uma linha que fazia L2 Norte-W3 Sul direto. Pra ir eram 15 minutos de viagem. Mas a volta não ia direto, dava aquela volta na Esplanada em horário de rush, o que acrescentava 15 minutos no trajeto - ainda assim era mais rápido do que qualquer outra linha e muitas vezes, quando ninguém ia descer na Esplanada, o motorista simplesmente resolvia não passar lá e então íamos direto pra L2
Esse motorista era um caso de amor e ódio. Durante umas duas semanas eu simplesmente não consegui pegar esse ônibus por culpa dele. Motivos: um, ele nunca passava no mesmo horário. Se eu saía dez minutos antes do fim do expediente, ele passava quando eu estava atravessando a rua. Outros dias eu saía quinze minutos antes do fim do expediente e o ônibus não passava. O segundo motivo é que quando o ônibus passava no horário em que eu estava esperando, o motorista não parava! Se tinha congestionamento de ônibus na rua, ele não esperava os outros saírem da frente pra ele encostar, ele passava por trás de todos e ia embora. Não era raro também ele passar direto mesmo sem congestionamento, bem antes de chegar perto da parada dava pra ver ele entrando na pista mais distante da calçada e acelerando.
No primeiro dia que consegui pegar o ônibus eu estava preparada pra olhar bem pra cara condutor e traçar o perfil de empregado vagabundo, pra ficar observando ele e o cobrador, suas interações, comportamento, sotaques, religiosidades e ignorâncias, tudo que pudesse alimentar minha indignação. Mas subi tentando me controlar e não olhar feio pro motorista. Minha surpresa foi que ele olhou feio pra mim! O cobrador que eu também queria maldizer era uma mulher. Formavam uma dupla e tanto Ela chamava o motorista de Índio ou Indião.
Eu sei que atitude do motorista era muito errada e a cobradora era sua cúmplice, mas não conseguia mais sentir raiva. A cobradora era uma mulher como eu... E eu não podia chamar o índio de vagabundo. Eu tinha o direito de ficar emputecida por ele me fazer pegar outro ônibus, demorando mais de uma hora pra chegar em casa, mas afinal, a maioria dos brasilienses demora isso.
As conversas da cobradora com Indião valiam toda viagem. O motorista fumava, só andava em alta velocidade e mal esperava a gente descer do ônibus. A cobradora dizia que ia sair pra beber com ele e os outros motoristas e cobradores da empresa, ao que parece o Índio era muito popular e ela queria se enturmar com o pessoal do trabalho, mas reclamou que eles só tomavam cachaça. Ela preferia vinho e não podia ser dos muito baratos, porque não adianta beber pra passar mal no dia seguinte, era melhor pagar mais por algo melhor e aproveitar. Mas o Índio ria da moça, gostava era de cachaça mesmo.

Não teve jeito, acabei gostando da dupla do ônibus. Entre a sonoridade do trânsito e do motor do ônibus eu ouvia pedaços de conversas dos dois.
- Já te deram sua folga?
(...)
- Quem vai trabalhar no domingo?
(...)
- Você vai trabalhar no Ano Novo?
- Até trabalho, mas só se me pagarem 80 reais.
- Por 80 eu não trabalho, não.
- Ah, você é motorista, pode cobrar mais, uns 120, mas eu não.
(...)
- Amanhã preciso arrumar meu celular novo. Ele fica vibrando toda hora e eu não consigo mudar, minha filha já tentou. Precisa de uma senha, tem que ligar lá.
- Vai na loja e diz que você queria um celular e não um vibrador.