segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

desejos primários

Os dias e eu seguíamos num natural e tranquilo compasso, até que ele apareceu. Quando percebi, tinha-me posto a observá-lo. Censurei-me no início e voltei a me focar no que fazia antes, mas era como se eu tivesse desaprendido a técnica, senti-me mal acabada. A naturalidade com que eu existia simplesmente apagou-se.
Tudo o que ele fazia parecia mais divertido, surgia um inevitável desejo de fazer igual e era tão forte que eu não conseguia sossegar. Então eu tentei imitá-lo, até me de dei bem, não era difícil afinal, mas era sempre mais chato quando eu fazia. Eu olhava para o lado e novamente ele estava fazendo algo que parece melhor. Era um problema crônico, eu nunca o alcançaria.
Larguei mão... não adiantava me exaurir e frustrar. Meu interesse ainda era algo quase místico - jamais havia sentido algo assim - mas eu não precisava enfim entendê-lo, procurei outros modos de lidar com isso. Parei de gastar meu tempo observando-o: deixei-o, assim, como só ele sabe fazer. Apenas apareço pra pra ver como as coisas que ele fez ficaram no final e então pego de suas mãos, tomo pra mim e está resolvido.
Hoje, ao pensar há quanto tempo isso se estende me sinto exausta, porque na verdade eu queria muito parar, mas não posso, toda vez que ele aparece é a mesma coisa. A vontade que ele desperta não finda...
Por isso tomei uma decisão - e não me importa como a julguem - achei melhor mantê-lo junto a mim. Dispus-me a protegê-lo, a ouvi-lo, também o fiz sorrir e depois chorar - para mostrar como precisava de mim. O fiz feliz e então pude tomar a felicidade dele pra mim.



fundo sonoro: Just - Radiohead

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

inócua

Acontece que de uns tempos pra cá as coisas ficaram estranhas. Ela ficara secretamente chata. Eram raras as músicas que não a enjoavam ou irritavam, lia autores à procura frustante de novas obras a sempre serem lidas e, quanto aos filmes, olhava a programação do cinema, mas lhe interessava mais reassistir os da locadora. Outro pormenor era que admirava cada vez mais das pessoas a sua volta, gostava do jeito de cada um, para ela tão característico como em personagens de filme ou mesmo de ligas de super-heróis.
Mas no fundo designava a eles a razão dessa perturbação toda, pois de algum modo obrigavam-na a fazer algo ao qual nunca se havia dado ao trabalho: mostrar pessoa que julgava ser. O motivo ter vivido até então meio as escondidas não me consta saber. Ela costuma explicar-se assim, que antes simplesmente não valia a pena. Mas eu diria que tal comportamento estava mais para uma decisão covarde do que sábia.
Hoje em especial me sinto com o corte cego. Sem problemas... todos tomam como pretexto minha inocuidade. E com razão, se chego a cortar, é só a minha a carne.

domingo, 4 de novembro de 2007

desligando pontos

Estava a andar pelos blocos, olhos baixos, olhando meus pés, um tanto decepcionada por não ter reparado que eu estava com minhas havaianas brancas encardidas. Foi então que passaram por mim dois pés descalços, não encardidos, pretos mesmo. Eram de um garoto que equilibrava num dos ombros uma cesta básica que devia pesar tanto quanto ele.
Certa compaixão atreveu-se a manifestar-se, mas em seguida veio o sarcasmo que tem me acompanhado nos últimos dias, pois não eu estava preocupada em refletir sobre nada, talvez seja por cansaço.
Continuei meu caminho e no carro estacionado por qual passei, li, "Tudo com Jesus, nada sem Maria". Isso trouxe além de mais firmeza a minha recente decisão de não refletir sobre o que ando vendo, uma enfadada revolta.
É que as coisas ao nosso redor vão acontecendo numa continuidade tão natural que parecem fazer parte de uma mesma coisa e que estão juntas a formar uma só realidade. Porém tão natural quanto a sucessão dos fatos é nossa preocupação imediata em interligá-los e como puderam perceber diante dos ocorridos descritos acima tal exercício tem exigido fé demais. Assim, desisti mesmo de refletir sobre as conjunturas cotidianas.
Há incoerências demais no mundo pra que eu me anime a procurar um possível - nem por isso provável - sentido que, nas profundezas das coisas (ou quem sabe nas alturas), costumamos achar que existe, eu, o pessoal do bloco e o garoto que não tem chinelos.