terça-feira, 17 de junho de 2014

Era um sábado de manhã cedo, eu tomava café na cozinha enquanto as crianças dormiam. Fazia um mês que meu casamento finalmente desmoronara após um longo período de pequenas erosões. Um mês da nossa última briga, ele finalmente admitira que vinha me traindo e foi quando descobriu, para sua surpresa, que as semanas em que viajava a trabalho na verdade vinham sendo aliviantes para mim, pois eu não precisava esconder minha indiferença.
Minha filha de 6 anos levantou primeiro, não a escutei e ela me viu fumando. Não havia como disfarçar que havia algo errado acontecendo. Ele disfarçava melhor, era mais fácil, pois só aparecia quando estava tudo sob controle, nunca era pego de surpresa. Os olhos dela me fitaram com preocupação. Os outros dois mais novos, acostumados à rotina sem o pai, apenas se apegaram mais mim. Ela não, até nas reuniões do sindicato ela costumava ir com ele.
Mas era 1994 e a inflação conseguia ser o maior de meus problemas.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Faz um ano

Abriu o chuveiro. Um cheiro leve de barro subiu quando o corpo foi molhado. A luz fraca deixava o ambiente aconchegante. Nos dedos que lavavam a cara sentia as feridas secas cujas cascas demoram a amolecer. As costas relaxavam enquanto os pés firmes no chão sustentavam as inchadas pernas.
Já faz um ano. O mundo de fora muda mais rápido que o de dentro.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poesia direta

O clima dessa época castiga aqueles que aceitam o convite de prolongar a conversa ao relento sob o pretexto de uma última dose. No dia seguinte a reação é desproporcional. A cabeça pesada e uma ardência nas narinas a cada respiração.
Ar seco, leves sopros gelados. Parece que nada acontece na cidade. Ilusão causada pelo fato de ao redor o silêncio ser acompanhado apenas das notas agudas dos pássaros e pelo longo ronco dos motores pesados na via.

(A beleza salvará o mundo de que?)

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Se Brasília é uma cidade sem esquinas, o que mais tem é encruzilhada. Em um lugar onde as curvas possuem, antes de tudo, um sentido estético, a gente só confia pelo ângulo reto. O golpe mais curto e certo é diagonal. Nossa arma, um compasso.