quinta-feira, 8 de julho de 2010

Terra do nunca

Uma pequena folha seca desce encaracolada no ar às dez da manhã. Antes do almoço as empregadas descem as escadas enroladas com crianças no colo.
Agora as meninas correm com suas roupas rosas. Se não brincarem não sentirão fome. O sol aquece uma mulher no banco, a conversa solidariza outras duas. Eventualmente alguém cai e chora, o que não gera maiores alarmes: questão de sorte: se não fosse você seria a outra.
Pequenas tragédias abulantes, grandes em potencial... 
A claridade obriga-nos a deitar um olhar sombrio.
Vejo os primeiros flocos de paina do ano. Cada um deles guarda uma memória pueril. São necessariamente recentes, pois sua textura, quase insensível ao toque, desmancha-se com qualquer sopro de tempo. Em breve o chão estará branco, repleto de memórias perdidas. Mas parecerá uma grande nuvem e quem quiser ainda poderá brincar de andar sobre elas.

fundo sonoro: The Blues are Still Blue - Belle and Sebastian

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na terceira do singular

Freqüentemente ao acordar tenho me deparado com um homem nu em minha cama. Na maioria das vezes me cubro e volto a dormir ou mornamente o desperto, pois não acordo de verdade se ele não falar comigo. Em dias, como o de hoje, eu me surpreendo.
Não quero falar da cumplicidade e o zelo que essa relação envolve, trata-se de uma sutil e não necessária implicação.

Acredito que eu nunca havia passado tanto tempo sem escrever. Mesmo com as atividades que me tomam o dia, não dá pra fingir que essa relação não tenha algo a ver com isso. E não foi só a prosa que eu sumiu. O número de pessoas do meu convívio também caiu.
Eu tenho meus momentos a sós, poderia ter mais. Poderiam ser aproveitados para escrever, reencontrar amigos, viver a vida que me é particular. Mas não funciona assim. Era preciso muita consciência de si para fazer essas coisas. Mas se tornara realmente difícil sentir-me sozinha agora. Minha identidade, minha solidão, não se encontram sequer no branco do teto do meu quarto. Na hora do banho viram vapor...
Ainda preciso dos meus momentos a sós, e me orgulho disso. O mesmo parece ocorrer com os segredos que são apenas meus - embora não goste deles em si e prefira esquecê-los.
Há pouco tempo pressenti o perigo de uma crescente perturbação causada pela saudade de alguma de essência minha. Decidi que deveria encontrá-la e tomar as medidas para que acontecesse logo e completamente, sem ruídos. Comprei um maço de cigarros e fui passar uns dias na casa de minha irmã -liguei também pra uma, mas ela tinha outro compromisso.
Imagine que nem de três dias e um cigarro se passou.
Eu sabia bem a direção, as cores e as horas pra onde eu queria voltar. Naquela antiga fazenda, em pé na varanda, meu olhar perdia-se num ponto fixo muito adiante... Eram as mesmas cercas. Não era preciso andar até lá, pois eu podia mais do que vê-las dali, podia segurar as arestas de madeira seca, batê-las o pé, sem vontade de estar ali.
Não importa se mal conheço os ressaltos depois desse limite. Nem sequer sei se existem mesmo ou é a repetição simétrica que meus olhos produzem. É-me indiferente, se eu puder não pensar, sinto que não encontrarei novos tons. Um exaustivo bis de enfrentamentos. Um arco-íris binário. Não, não reproduzirei mais esses passos. Até que as cores amadureçam. E que as rajadas de vento mudem a paisagem.
Eu espero.
Repouso a cabeça no peito dele, quase sem cheiro.
Não foi sem um grande alívio que percebi o privilégio que agora eu tenho de não precisar ser inteiramente. Ultimamente tenho sido mais dele do que sendo. Sua. Sou ela.
Alguém que pega ônibus, vai ao trabalho, faz compras. Mas se você perguntar por ela, ninguém saberá lhe dizer. Ela só existe quando está com ele, a única testemunha.

fundo sonoro: Perfect Day - Lou Reed e Elvis Costello

domingo, 26 de abril de 2009

cacos

Talvez a forma do amor seja a de uma esfera - como uma bola de cristal. Ao menos assim se manifesta quando lhe rompem em pedaços, lhe quebram.
Ele, que era só forma.
Estilhaça-te. E não sobram unidades volumosas. Só restam pedaços disformes e estes se fazem apenas função. Destina-se a sangrar quem lhe quebrou, não por raiva nem deliberadamente. É a forma que fatalmente assume.
Ainda julgam o amor cruel, porque ele faz sangrar. Como se apenas o sangue significasse sofrimento.
Acontece que a dor do corte é óbvia, carnal, é sentir o substancial presente, inquestionável, tão certo quanto é a coagulação.
Mas quando se é resíduo de algo, como o sentimento despedaçado, sua própria existência não passa de intuição de um passado. A única confirmação de realidade é perfurar aquele que o transformou em estilhaço. No pequeno espaço de tempo em que tudo se quebra e o sangue escorre, esquece-se o que é que foi quebrado, pois as partes não podem ter noção do todo.
Vou lhes contar do sofrimento de fazer sangrar.
Quanto mais os cacos perfuram, mais percebem o que não são, que lhes faltam partes. Esse sofrimento, da incompletude é sua condição de caco, um vazio consciente e incerto, vazio que não consiste em morte. Em suspiros dilacerantes, uma dor que não sangra.

fundo sonoro: Where I End You Begin - Radiohead