sábado, 14 de novembro de 2020

Pequenos Ícaros

 A pipa que você leva junto ao corpo

com o escudo do Capitão América

me faz pensar:

onde estão os super-heróis agora?

Protegendo quem senão você?

Só o que te salva é essa brincadeira.

Feita de papel de seda, cola e graveto.

Diferente do mundo que te prende

em papel pautado, margens e grades.

Você já viu a maldade do mundo

O ódio nos olhos de teus heróis

A humilhação de quem pedia ajuda

A morte de quem ainda não tinha idade

São linhas tênues, cortantes,

rasgam fundo sua alma,

armadura de pantera.

Você já entendeu que esse mundo é um grande nó

E que qualquer super-homem se emaranha.

Então vai do seu jeito,

voa como pipa

Solta a linha,

que a gente te segura pelo fio.

Usa todo carretel

até a gente quase não te ver mais.

No céu longe, só um pontinho.

Mas depois volta,

Volta, pois a liberdade não batizará o céu

Enquanto os mitos forem louvados

e os pequenos Ícaros esquecidos.

Por um fio

Você já ouviu um homem gemer até você não saber se é prazer ou se já é dor?
Já sentiu a pele dele tremer e ter que ir mais devagar?
Ele já te disse que sente medo, mas que não quer parar?
Com as duas mãos sugiro que abra as pernas,
deslizo o dedo em sua virilha até meus coro encontrar seu cu.
Mas esse fogo gera cinzas em meu peito
Quando gozo elas sobem, sublimam e saem como lágrimas
Outras vezes tusso em um pedaço de papel e as cinzas saem formando desenhos, letras
até poemas inteiros

sábado, 26 de setembro de 2020

As penas da utopia

 

As aulas iniciaram de forma remota, com encontros virtuais, após passarem por um período de adaptação por causa da pandemia. Uma pessoa de nossa turma mora em aldeia indígena e quando entra na sala ou ligava o microfone, o som do ambiente se destaca. Em contraste com a voz dos demais alunos e do professor, isolada em um fundo opaco, a dela vem acompanhada de um farfalhar de galinhas e passarinhos. Eu consigo visualizar a terra batida e a sombra das árvores. O cheiro do mato por pouco me escapa e me lembro do plano de ter uma casa com galinhas no quintal. Minha mãe e minhas tias contavam com alegria que cresceram em uma casa onde criavam galinhas e porcos – acho que foi daí que tirei essa ideia.

Eu costumo assistir as aulas virtuais no quarto, me isolando do som da casa e deixando a câmera desligada para garantir a conexão da internet. Em uma manhã a voz do professor parecia tão monótona que adormeci. Nesse dia específico eu estava com cólicas e mal consegui levantar da cama para ligar o microfone e garantir minha presença.

Sonhei com papagaios e araras azuis. Uma arara estava no quarto da casa da minha avó. A ave parecia machucada, mas pulou pela janela e lá no quintal deu de encontro com uma arara mãe que a ameaçou, protegendo por sua vez, o seu filhote. Havia uma criança comigo no quarto e eu tinha que cuidar dela, então peguei-a pela mão e disse para irmos lá fora ver o animal, pois minha preocupação era que os bichos se ferissem mais. Para minha surpresa, o quintal era um espaço mais amplo do que a casa da minha avó e encontrei alguns colegas de turma. Eles também queriam ver as araras. Mas quando adentramos a cerca não conseguimos ficar muito tempo, havia um tucano azul na copa de uma das poucas árvores, enquanto as outras aves mais coloridas estavam presas em gaiolas. Por fim, quando olhávamos para o chão víamos papagaios e araras mortas, esmagadas tal qual pombos nas ruas das grandes cidades.

Acordei quando o professor fazia uma crítica a quem ele chamava de primitivistas: pessoas que idealizam a vida dos povos indígenas, como se estes tivessem a melhor organização de trabalho, divisão mais justa de poder entre gêneros e harmonia com a natureza, além de uma pureza moral.

Lembrei que antes de eu pegar no sono, o professor falava sobre nossa geração ter uma aversão à palavra progresso como se ela fosse o maior dos males da atualidade. “O progresso técnico e científico trouxe malefícios e benefícios. Hoje se fala como se o desenvolvimento fosse só problema, mas na verdade a democracia é parte do progressismo. Quem vai dizer que é contra a democracia?”

Então lembrou que estamos sob o regime de Bolsonaro – “sei existem grupos hoje que defendem a ditadura, mas tirando esses, não há quem discuta que a democracia é o melhor regime de governo”. Disse em sotaque francês.

De volta ao assunto dos primitivistas, um aluno ponderou que o postulado geral, apesar do romantismo, tratava da comparação entre as sociedades que aderiram à forma política do Estado e do capitalismo, e as demais que não aderiram e, não coincidentemente, são menos violentas, tanto no aspecto de que matam menos internamente quanto matam menos outros povos. Mas de acordo com o professor esses estudos tinham sido feitos por jovens entusiasmados que morreram cedo sem a oportunidade de reverem seus escritos, a mesma linha seguem outros estudiosos cujo maior interesse era político, projetando nos povos indígenas suas próprias utopias.

É verdade que há um tanto de ficção nos estudos sobre sociedades comunais, comunitaristas, assim como há um tanto de fé na ideia de fim necessário do capitalismo. Não vejo problema em admitir isso e ao mesmo tempo dar continuidade aos estudos que se pretendem mais descritivos junto às comunidades interessadas. A questão é que todas essas chamadas utopias, projetadas seja no passado seja no futuro, foram fundamentais para a construção das condições reais de vida social alternativas ao capitalismo e ao estado. Negar isso é podar as asas dos passarinhos, é prender em jaulas a imaginação dos estudantes.

Aprendi com os malucos, com os artistas e com as crianças da minha vida que misturar o real e o imaginado, a verdade e a utopia, nos faz mais humanos, melhores humanos. Separar demais essas duas coisas levou parte da humanidade há vários avanços, mas nos trouxe de volta um acúmulo de extermínios, guerras mundiais e bombas atômicas. Não bastasse isso, o progressismo não escapou às suas próprias utopias. Do lado de cá do globo, onde sequer o problema da fome foi resolvido, a democracia ainda existe como ficção.

Assim, o inimigo do conhecimento não é a utopia, não é o desejo, a fantasia, não é a religião ou a magia. O inimigo do conhecimento é a imposição de uma verdade através do ato de exterminar, estuprar, escravizar, explorar pessoas e outras formas de vida. É incrível e fabuloso pensar que um grupo de pessoas conseguiu fazer um homem pisar na Lua. Mas é inútil colocar esforços para que nos tornemos uma só civilização de indivíduos corpenicanos, de sujeitos extremamente comprometidos com uma ideia de verdade, assim como é demais exigir de bom estudo social a ausência de uma dose de imaginação política. O progressismo faz um bom serviço ao contrapor os terraplanistas, negacionistas, criacionistas, fundamentalistas, todas essas formas de suposto conhecimento que servem à dominação. Mas deixem trabalhar aqueles que se propõe a dar voos mais longos, imaginando como o mundo poderia ser enquanto alimentam suas galinhas.


domingo, 9 de junho de 2019

No primeiro gole a voz embarga, os olhos marejam.
No fim da lata, a língua enrola e uma mulher no caminho, é ninho.
Sedento por novos toques, outros cheiros. Nem sempre tão diferentes assim.
Ele adentra os mesmos cômodos, o mesmo sexo desprotegido.
No terreno dele muitas mulheres perdem força.
Ao luar, a fogueira mais próxima, regada à vinho, não é a que a celebra mulher.
É a que a consome, lentamente.
No terreno dele, a lei é que o amor sempre perdoa.
Assim mantém o conforto de um relacionamento e o descompromisso de menino.
No terreno dele ela é lar sagrado.
Se aceita os limites, enterra as provas, levanta as paredes e afasta aquelas que teriam outras histórias para contar.
Histórias que se repetem com novas desculpas, outras promessas. Nem sempre tão diferentes assim.
Ele adentra os mesmos cômodos, o mesmo sexo desprotegido.
Depois são silenciadas, descartadas, desacreditadas.
Algumas somem de cena.
Outras assistem tudo no íntimo de sua residência, conformadas de que nem sempre o amor vale a pena.
A cura é cara, cobra cada espasmo de prazer, cada palavra ainda engasgada e cada pequeno abandono acumulado.
Por isso mudo sempre a direção, dou a volta no quarteirão querendo um dia reencontrá-las
no terreno sem dono,
no gozo sem culpa
no ardor e alívio de nossa verdade

domingo, 5 de maio de 2019

A separação


Era um sábado de manhã quando acordei em casa, uma morada ampla para uma menina de 6 anos de idade. Fazia sol, mas não estava muito quente e meu pai chegara de viagem no dia anterior, assim tudo devia estar em ordem de novo.
Ao dar bom dia para minha mãe, perguntei do meu pai e recebi a notícia de que ele fora morar na casa da minha avó. Não entendi por que ele queria morar em outra casa - estaria minha avó muito doente? Ele viria visitar sempre, dizia minha mãe. Não que esse vai e vem fosse novidade. Mas até ontem ele estava ali, no seu lugar que há algum tempo passara a ser o quartinho dos fundos, o ‘boa noite’ antes de dormir, "você é a coisa mais importante do mundo", o acordar no sábado de manhã, o pequeno cais na volta de cada viagem. Esse pouco que tinha sobrado de uma separação a prestações nunca admitida. Minha mãe tinha uma tristeza ao seu jeito, mas estava forte para seguir o dia.Comecei a chorar, voltei para a cama acalentando a mim mesma até dormirem as lágrimas no travesseiro.
Quando acordei, meus irmãos ajoelhados nas cadeiras em volta da mesa da cozinha ajudavam a fazer o bolo de chocolate preferido. Nega maluca era o nome da receita. “Olha quem acordou! Adivinha o que estamos fazendo” disse a mãe com animação. Os pequenos estavam ansiosos para rapar a tigela da massa ainda crua, mas eu ainda me dava conta de que não havia acordado de um sonho ruim.
E tudo o que se fez presente foi impondo a normalidade, tal qual o racismo em uma receita de bolo. Algumas coisas mudaram aos poucos. A mãe agora ouvia músicas românticas açucaradas e de superação, às vezes eu mesma colocava a fita para repetir até decorar. Meu pai me visitava, mas já não ocupava o mesmo lugar. Agora ele parecia um homem da novela que eu gostava de assistir.
Ao longo da vida, aquelas lágrimas ganharam vontade própria que, adormecidas, despertavam no meio de um dia qualquer.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Por caminhos raivosos.



    Um ex-jovem-punk que conheci naquele dia me disse que não se nadam mais nelas, pois os esgotos da cidade tudo caem ali. Tudo merda desses prédios burgueses. Tá vendo que não tem ninguém no mar? As pessoas vêm para caminhar. Quem tá no mar geralmente é gringo. Dois casais de adolescentes estavam na areia escutando música. Eles sentados de frente pro mar, elas dançando na frente deles. O rapaz com quem eu conversava havia se oferecido para me hospedar em sua casa então eu ia usar o dinheiro economizado para conhecer os arredores. Ele me dizia que o melhor passeio era pelo São Francisco. Mas eu desconfiava. As mais belas praias do Brasil estão em Alagoas, como poderia um rio competir com esse mar?
    O amigo me contava que, quando era um garoto punk, andava muito por essa mesma praia com os seus, até o dia em que percebeu ser o único homem preto no grupo e que ninguém se importava sobre quanto tempo ele demorava para chegar em casa pegando ônibus depois de cada atividade. Com o tempo, ele se envolveu com o movimento de moradia que se situava próximo da sua casa, longe do centro. Passou muito tempo lá. Seu pai perguntava quando é que ia ganhar uma casa. Hoje o antigo anarquista está filiado a um partido onde continua sendo uma das poucas pessoas negras e ainda cogita disputar as eleições locais. É o desejo de fazer algo a mais, além de contar as mortes dos meninos como os viu crescer e que se vão como nada fossem. Sempre se falou que por aqui mata-se por pouco, pela escassez de alimento, qualquer troco errado, a desonra de um amor minguado. Mas agora mata-se ainda mais pelos grandes empreendimentos vindos do sul. As ordens das facções e da força nacional inseridas nos gestos, nas roupas, nos cabelos, nas calçadas, nas palavras que narram as tentativas de extermínio dessa gente imberbe.
    Nos conhecemos em uma ocasião de trabalho, justamente sobre esse assunto. Ele estava me flertando, mas eu fingia que não percebia. "Se eu tivesse dinheiro iria fazer esse passeio com você". Eu estava emocionalmente destruída do último romance em que eu havia me metido e não conseguia sequer ser gentil como se espera de uma jovem sozinha em uma cidade desconhecida na véspera do carnaval. Já estava escuro quando saímos do bar. Caminhamos pela orla sentindo, ora ou outra, o odor que a brisa trazia. E quando passamos pela estátua de Graciliano Ramos decidi dar uma chance ao interior de Alagoas. Vou aos Cânions!
    Era o passeio mais distante e mais caro oferecido pelas agências informais de turismo. É necessário acordar de madrugada para pegar a van, chegarmos no local antes do almoço e depois estarmos de volta ao anoitecer. O local conhecido como Cânions do São Francisco fica no Xingó, atravessando a divisa com Sergipe. Outras vans, cheias de pessoas prestes a conhecerem a grande obra do desenvolvimentismo, já estavam estacionadas. A barca nos esperava, também as caipirinhas e o pouco contato humano. A grande luminosidade do sol deixava todo branco ainda mais branco, como um comercial de sabão em pó e contrastava com os óculos escuros que impediam que cruzássemos olhares.
    O barulho grave do motor era encoberto pelas músicas consideradas tipicamente nordestinas. Por vezes, o som parava e uma voz no rádio explicava informações sobre onde passávamos. "Antes da barragem hidrelétrica ser construída, o rio São Francisco tinha de 50 a 30 metros de profundidade, hoje chega a 150 metros".
    Eu ainda não tinha entendido em que época o rio havia sido represado, a situação toda me remetia as recentes intervenções para a construção da usina de Belo Monte, tornando-se assim, confusos os tempos e as tenções, os dizeres que rebentavam em meus ouvidos.“A direita encontra-se o Morro dos Macacos, porém desde que o rio foi contido não há mais macacos. Hoje o local é habitado por aranhas que se adaptaram muito bem ao novo habitat".
    Eu fixava o olhar no horizonte, esperando que o vento secasse meus olhos. Uma jovem simpática dos seios de silicone tirou uma foto desse momento, compondo minha tatuagem na paisagem e me perguntou se podia ficar com o registro. Respondi que sim, também simpaticamente, acendendo em ser mais uma em meio tantos produtos.
    Em uma das curvas paramos para que apreciássemos a imagem de São Francisco de Assis encravada em um buraco na parede rochosa. A rádio começou a tocar a oração bastante conhecida do padroeiro do rio, mas houve um certo constrangimento quando boa parte das pessoas permaneceu calada com os olhos baixos por considerarem que o culto de santidades pode levá-las ao inferno, mesmo sendo um santo tão inofensivo como esse, por quem até os moderados ateus se afeiçoam.
    Então chegamos no ponto onde foi construída uma cerca aquática para que os banhistas aproveitassem a natureza dentro de um perímetro controlado. E como fosse uma grande conquista chegar até ali, o rádio toca a música das olimpíadas nos produzindo emoção, afinal pagamos para isso. Você ainda pode pagar mais para fazer um passeio em um barquinho a remo até uma gruta.
    Mergulhei tentando afogar meus pensamentos, as águas dissipavam o som dos meus gritos até eu sentir o ressoar alguma alegria, ainda que sarcástica, que resistia dentro de mim. De volta à terra, fomos todos ao restaurante. O almoço estava incluso no preço do passeio e você não tinha escolha de pagar só pelo passeio. A bebida era à parte e paguei 4 reais a garrafinha de água mineral enquanto via a propaganda que repetia em todas as telas onde um casal rico conhecia os cânions de helicóptero.
    De volta à van, pegamos a estrada e fizemos uma parada onde era possível ver as comportas. Os guias pediram para que todos passageiros se juntassem para fazer uma foto. Conta-se que por conta da barragem os peixes ficaram represados, acabando com o trabalho de várias famílias, mas ajudou o abastecimento de cidadezinhas e grandes fazendas. Os pescadores pedem para a hidrelétrica abrir um pouco as comportas na época das cheias, mas a empresa regula, dona da água e dos peixes. Foi assim que muitos filhos de pescadores viraram guias turísticos.
    Percebe-se que o volume de água nessa parte é bem menor do que onde estávamos anteriormente, mas nem por isso o rio era menos perigoso, suas águas produzem redemoinhos. Um pouco à frente o guia mostrou onde o ator da Globo morreu afogado entre as cenas da novela Velho Chico. "Quem conhece o rio sabe que não pode nadar ali. Muito menos comer pitanga" - piada repetida algumas vezes, referente à atriz que fazia par romântico com o falecido.
    A próxima parada foi na cidade histórica de Piranhas onde assassinaram Lampião e seu bando. Apontaram a escadaria onde as cabeças foram expostas pelos homens da lei que combateram o terror que os levavam às pacatas e honestas cidades, diziam eles. No museu você paga um real para ver as fotos do acontecido e os pertences dos mortos. É o mesmo preço se você quiser usar o banheiro que fica no galpão da feira de artesanatos, em frente ao museu. Entrei no banheiro pensando sobre onde o progresso tem nos levado. Tive de dar descarga três vezes. E quando fui lavar as mãos a imagem de um cangaceiro passou pelo espelho. Por alguns instantes achei que ele algum trabalhador usando traje temático estava atrás de mim. Talvez eu entrara no banheiro errado. Havia uma neblina subindo e embaçando a imagem do que eu via. Então percebi que ele estava dentro do espelho. Era um homem de um remorso envelhecido no olhar, havia alguma dor que o movia. Ele se dirigiu a mim, confessou-me que seu companheiro não morrera das feridas da batalha, que jamais terminaria assim, isso era fato. Mas que a palavra, como o rio, nos leva a caminhos traiçoeiros a depender não só de quem conta também para quem se conta. Guardara esse segredo a vida toda, por não ter a quem dizer. A travessia não terminou, o que me faltou foi coragem para segui-la. A raiva que se entranha em ti é Diadorim, ela poderá contar-te sobre outros caminhos, onde a justiça é possível, teu gênero livre e talvez até o amor. Peço que o leitor perdoe esse romantismo revolucionário, mas sendo-lhe próprio do sertão, cada um leva aquilo que lhe destina e nenhuma palavra a mais.
    No fim do dia tive receio de estragar as memórias de infância do meu amigo ex-punk quando nos encontramos e não pude esconder minha expressão de derrota quando contei do passeio. Mas ele apenas comentou que as coisas têm mudado, que na sua época a modernidade não era tão brega. E absolveu-se quando, no dia de sua folga, me levou a conhecer uma praia no município próximo onde sua mãe havia comprado um pequeno lote financiado. A cidade onde ela cresceu fica ao lado de uma vila de pescadores. Um pequeno trecho de mata nativa separa o mundo da praia. A calmaria do mar ressoava imediatamente às vísceras, o horizonte aumentava a amplitude do globo ocular enquanto a retina se acostumava a absorver a paisagem. As grandes redes de hotéis em breve vão chegar, meu amigo disse. O litoral todo ressoou.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Notas sobre o fim


Numa manhã de quinta-feira o oficial de justiça foi até minha casa entregar uma intimação para que eu comparecesse na semana seguinte a uma audiência. Na ocasião o promotor propôs 20 horas de trabalho de cada pessoa do coletivo para que se arquivasse o caso sem julgamento. A denúncia era de "perturbação do trabalho e do sossego alheio" em decorrência de um ato por melhorias no transporte coletivo. O promotor viu que não valia a pena acionar a justiça por conta do ocorrido. A verdade é que no dia do ato, o major acionado queria mostrar serviço quando voltasse à delegacia e então ficou provocando a visível inexperiência do administrador da região. A situação, que então já tinha sido resolvida entre nós, se revirou. Para não negar sua macheza perante o militar, o administrador autorizou nossa detenção e não satisfeito fez a denúncia de cárcere privado, uma acusação para além do razoável. Mas a dinâmica do poder em nossa sociedade é essa mesmo, se você tem autoridade e recusa-se a usá-la, você se arrisca a perdê-la. Institucionaliza-se a ideia que é sempre melhor abusar do poder do que subutilizá-lo. E aqui estamos...
Lá no tribunal, quando me indicaram a entidade para prestar as horas de serviço, disseram que tratava-se de uma creche. Mas quando cheguei no local era só uma casa usada como escritório. "Aqui é a sede", me explicou o motorista de um dos automóveis parados na frente. A mulher que me atendeu informou que o trabalho que precisavam ali era de limpeza, "Te avisaram isso lá?", "Não disseram nada" - respondi. Ela parecia um pouco constrangida, disse que eu ia pagar as horas rapidinho, que eu podia fazer os horários que eu quisesse e que ninguém ia ficar me cobrando. "Gostaria que você começasse pelos banheiros, você se importa?". Fiz que não, "eu já lavei muito banheiro na minha vida" - apesar dessa minha aparência branca e delicada, pensei.
A limpeza foi a melhor coisa pra aliviar um pouco da raiva que eu sentia naquele lugar. Tendo que reorganizar meu tempo para estar ali, com tantas outras prioridades em mente. Os funcionários atendiam o telefone dizendo "Casa de passagem". Mas não havia ninguém "de passagem", a não ser eu mesma. Nem camas havia para alguém dormir, os quartos eram usados como depósito de material de limpeza e alimentos recebidos como doação. Senti-me em um enredo de Kafka e Orwell ao mesmo tempo. A televisão na sala ficava ligada nos jornais que contavam dos milhões de reais desviados pelos governadores na época da Copa do Mundo e eu ali sendo punida por conta de uma manifestação popular. A perseguição à política institucional não alivia em nada a criminalização dos movimentos sociais e influi menos ainda na intolerância aos pequenos crimes da população marginalizada, que permanecia como prato principal nos noticiários do meio-dia.
Eu consegui desfocar da raiva significando o que era ocupar o lugar do serviço de limpeza que é para ser um lugar de humilhação e punição. Pensava na minha casa que eu não tinha tido tempo de limpar. Mas me vinha também o estranhamento do lugar da faxineira que não foi construído pra mim, apesar da condição de mulher. Muitas das sujeiras só quem está limpando é que vê. E apesar do contato com o sujo, cresce um senso de dignidade muito forte. Uma consciência que quem não limpa a sua própria sujeira nunca terá. Mas por mais empatia que eu tenha vivenciando nessa situação, minha voz interna logo se perdia na abstração da experiência particular, construindo o cotidiano de uma diarista que se tornou ambidestra porque em todas as casas em que chegava a luva da mão direita já estava estragada, só sobrando a esquerda para usar. Mas que bobagem, a luva esquerda também estava furada.
Devaneios como esse tem me travado de escrever há muito tempo. A sensibilidade humanista na qual fui criada me coloca esse dilema ético. Ela me aproxima do outro, me faz uma pessoa melhor, mas não deixa de ser uma sensibilidade limitada ao lugar social e que quase nunca consegue escapar da exotização ou do distanciamento impotente. Sempre me vejo caindo nisso e assim vejo quase todas referências culturais e intelectuais da esquerda branca progressista. Utilizar a alteridade para dizer, no fim, que sua existência só não é mais bela do que minha capacidade de narrar sua dor. Queremos nos aproximar do outro, mas antes de escutar já estamos mentalizando nossa redenção, a expiação de uma culpa histórica. Borbulho por dentro na busca de construir outra forma de lidar com a sensibilidade que me constituiu, que é bem menos libertadora do que se dizia. 
Passei a semana toda com a raiva não elaborada e só consegui voltar na entidade na semana seguinte. Menstruada. Nenhuma propaganda de absorvente ou remédio para cólica fala das dificuldades de fazer faxina menstruada. Da preocupação de sujar calça quando precisar abaixar e o patrão olhar sua bunda. Mas nesse dia acabei dando sorte, me pediram pra parar a faxina e ir organizar a despensa, pois havia outra pessoa já fazendo limpeza. Duvidei que era uma pessoa pagando horas à justiça porque era uma mulher de certa idade.  Ela se referenciava ao funcionário da entidade de "seu fulano" e pedia desculpa por fazer muito barulho enquanto lavava um balde de metal infestado com larvas de mosquito. Quase me convenci de ela era uma diarista contratada. Mas em dado momento ela sentou na sala para descansar em frente à TV que falava sobre a chacina de dez homens pela polícia no Pará e nesse momento começamos a conversar. Ela contou do filho que perdera e que era PM. "Nossa, morreu como?" "De suicídio". "Sinto muito. Essa profissão é muito complicada né?". "Mas não foi por causa da polícia não, ele trabalhou lá 9 anos, era inteligente, nasceu para estudar, você precisava ver. Foi por causa da namorada, era muito apaixonado por ela. Quando ele conseguiu comprar um apartamento, foi mostrar a ela o lugar onde morariam juntos, mas ela não quis continuar com ele. Ele se matou em seguida, no estacionamento do prédio". Me esforcei pra abstrair a conclusão da senhora de que um comportamento passional associado ao porte de arma não tivesse relação com a instituição policial e sim com a mulher que não queria mais se casar. Só assim poderia continuar oferecendo alguma escuta. Então ela me explicou que entrou com pedido de pensão da PM, um direito seu, já que seu filho não era casado e ela estava fazendo tratamento contra o câncer que era muito caro. Ela recebia aposentadoria por invalidez por conta da doença, mas era pouco. Acontece que entre luto, traumas e as burocracias de se perder um filho e de ter sua casa toda vasculhada pela PM em busca da arma de serviço do rapaz (que não foi a arma que ele usou pra se matar), a senhora assinara um documento afirmando que não recebia nenhum "benefício" - ou qualquer que fosse o termo técnico que usaram para não-explicar o que o documento significava. Ao que parece ela não poderia receber dois "benefícios" (sua aposentadoria por invalidez, mais a pensão por morte do filho), mas a PM não satisfeita em apenas recusar o pedido de pensão, entrou na justiça contra a senhora, alegando que ela agia de má fé. A defensora que acompanhou a senhora aconselhou que ela dissesse que a assinatura não era dela ou que não se lembrava de ter assinado. Mas a senhora não achava certo mentir pra juíza. Na sua consciência ela sabia que tinha assinado e Deus também sabia. Pegou 60 horas de trabalho. Ela é negra, mora na Chaparral, divisa entre Taguatinga e Ceilândia e vai de ônibus até Taguatinga Sul fazer faxina nos dias em que não está se sentindo tão mal com efeitos da quimioterapia que faz semanalmente. Ela também cuida de um neto que vai ter que parar o curso na faculdade particular, para ela poder pagar o tratamento. Já entrou na justiça para receber os remédios gratuitamente, mas o juiz negou alegando que o governo está sem dinheiro. "Agora ele vai ter que parar de estudar, senão eu morro". Eu só consegui representar o papel de me mostrar ao seu lado e afirmar a ela o absurdo que era aquela história que, para minha dor, já era contada com naturalidade. Me contou ainda de sua filha, que vive mudando de cidade acompanhando o marido que trabalha no exército e quer voltar pra cuidar da mãe, mas ela disse que não aceita porque a filha tem obrigação de ficar com o marido "o que Deus uniu é para sempre". Eu queria ter conseguido dizer que não era assim, mas como mexer nas certezas de uma mulher que já enfrentou tantas vezes a morte? Após o silêncio ela cochichou comigo "Esse lugar aqui é o que mesmo hein?" "Também não entendi e não sei se devo perguntar" "Também não. Só sei que eu venho".
Voltei a desencaixotar e emprateleirar desinfetantes pensando em como ali na "casa de passagem", uma instituição filantrópica, permitiam que aquela senhora trabalhasse doente. Foi quando a moça da entidade entrou no depósito pra perguntar se estava tudo bem. Comentei como a história daquela senhora era triste. Ela concordou, mas o assunto não foi pra frente. Minutos depois a senhora estava limpando o chão da sala com sabão e vassoura. Mais tarde, enquanto eu desmontava as caixas de papelão na varanda, ela sentou no banco para descansar novamente e entre assuntos amenos, perguntei se ela não conseguia um atestado médico dizendo que ela não podia fazer esforço. Ela me explicou pacientemente que durante a audiência, ela e a defensora apresentaram laudos de três oncologistas comprovando a doença, mas a juíza sentenciou o crime de falsidade ideológica com as horas trabalho, provavelmente sentindo-se até caridosa.
Eu, por minha vez, pensei várias vezes em falar mais diretamente com a mulher da entidade que é responsável por registrar nossos tempos de trabalho. Queria sugerir se não tinha como deixar a senhora descansando ou, de alguma forma, amenizar o sofrimento dela, ocasionado desnecessariamente por um sistema de justiça falho e desumano. Mas eu tenho menos coragem do que aparento. Eu tinha medo de gerar um mal estar que atrapalhasse meus trabalhos na instituição e de ficar presa nessa teia judicial por tempo indefinido. Eu tinha medo da resposta que no fim é: cada um tem que cuidar da sua vida. Não podemos fazer nada, pois só seguimos a lei. A minha verdade é a de que não se pode seguir ordens cegamente. Só que eu estava lá porque me meti onde não devia, era o que eles pensavam, embora não dissessem. E de alguma forma aprendi a lição que queriam, afinal quem era eu pra me revoltar mais do que a própria mulher, que apesar de tudo, ainda demonstrava sincero afeto pelas pessoas que ali trabalhavam? 
E há alguma verdade nisso. Não quero ser heroína, não quero salvar ninguém mostrando o caminho da verdade. Quero construir junto esse caminho. Por vezes quero mesmo é destruir tudo.  Quero me revoltar ainda que a injustiça não tenha acontecido comigo diretamente, mas me atinge porque ainda existe um nós, existe uma humanidade que foi violada e isso me diz respeito. Mas isso não pode me levar ao heroísmo, a aparecer no momento de crise da vida das pessoas trazendo uma solução reformista. Não se muda as coisas agindo apenas nos momentos críticos. Como têm dito alguns pensadores, depois da guerra fria a esquerda entrou na lógica da emergência, lógica que nada modifica e nada constrói. Ao contrário, nos deprime, pois não tem horizonte, só tem migalhas. E não vamos mudar isso exercendo nossa sensibilidade humanitária e heroica. É preciso estar presente no cotidiano, construir organicidade, estar junto para construir junto, sabendo que a mudança é processual e dolorida também. É a desconstrução contínua de si frente ao outro para se construir um nós. É lidar com a certeza de que muita coisa está praticamente condenada, que é preciso lidar com a morte, sem indiferença e sem salvacionismo. É preciso admitir o fim para que o novo venha. E mesmo que ele não venha, se esse for o fim dos fins, que ainda assim tenhamos o compromisso de construí-lo do nosso jeito.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Desconcentração pulsante. O dia inteiro olhando na tela as letras enfileiradas. E tudo o que de lá reluzia era a delineação de nossos quadris encaixados. Volto pra mesma linha compulsoriamente. Contra a parede, eu contraída e salivante. Pulo o parágrafo para quebrar o ritmo. Volto a sentir teu gosto em minha língua, o desejo na dor meio aos seus dentes.Todos em volta calados. Leitores compenetrados. Ofegante, sinto no corpo os detalhes do que eu queria. 
Finalmente, você decantado em meu gozo. 

Após um certo tempo deitada e relaxada, uma simples gota escorria de dentro de mim. Só uma gota. A medida certa de algo que lhe era tão íntimo e não meu, tinha a temperatura levemente mais fria do que a corporal que involuntariamente me acariciava enquanto descia uma dobra mais sensível. Sorri com prazer e agarrei-lhe mordendo-lhe o braço.

Precisava das duas mãos dele em meu corpo o tempo todo, senão começava a levitar. Me segura o tempo todo, me lembre que estou aqui, devagar, me traz de volta, fica. Sexo, escrita e a necessidade de aterramento. Ânsia de fazer sentido imediato, de pertencer a uma insipiente totalidade. Constatar o vazio na tentativa de superá-lo momentaneamente. Por que o sagrado escapa? O sagrado gasta. Buceta não gasta.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pouco antes das 18 horas ao sair pela porta do edifício em que trabalhava, Eli caminhou pelo estacionamento entre as paredes espelhadas e desceu a escadaria de concreto. 
Nesse caminho fora acompanhada por sua desagradável imagem refletida em todo lado e por uma dúzia de homens de corpo pintado. Saíram por detrás de um dos prédios e aos poucos caminhavam todos para a mesma direção. Alguns usavam cocares e um deles registrava em sua câmera o edifício de um banco e o trânsito dos carros. Na baixada íngreme até o semáforo não utilizaram a escada, mas a rampa sem qualquer dificuldade. Eli não conseguiu disfarçar sua curiosidade, por isso, enquanto esperava o semáforo, foi fotografada como resposta e provocação.
Ao atravessarem a faixa, separaram-se. 
Subindo agora por um caminho de terra até uma pequena aglomeração de pessoas que conversava ao redor da churrasqueira, o cheiro de gordura e cigarro mexia com seus sentidos enquanto a fumaça e os motores dos ônibus a fazia retrair todo corpo. 
Seguia em rumo a outro semáforo que levava à rodoviária. No caminho, um amontoado de palha de milho no chão sem sinal de quem o venderia. Ali do pequeno cume era possível ver os ambulantes com suas mercadorias e ouvir seus dialetos que traziam vida ao dia nublado. Roupas, vídeos, brinquedos e frutas traziam diversos estímulos aos olhos. Ficavam de frente a uma via de grande fluxo e o semáforo demorava para abrir aos pedestres, por isso acumulava-se um batalhão de gente em ambos lados da pista. Nos buracos deixados pela frequência irregular de carros alguns ansiosos se arriscavam calculando mais ou menos o tempo. Em ritmos saltados saltando em ritmos quebrados entre as faixas brancas no asfalto. Eram como notas musicais na partitura de jazz. Esses aventureiros eram os metais que abriam a música. Eram seguidos pelo ruído contínuo das rodas dos últimos carros passando por cima da linhas e, ao abrir o sinal para os pedestres, as graves e rápidas batidas dos pés davam a harmonia. 
Sem escutar a música, esperando os carros pararem, a maioria das pessoas permanecia em seus lugares, como um exército em frente ao outro. Até que, permitida a passagem, se encaravam por meio segundo e seguiam em frente buscando evitar o confronto - algumas vezes sem sucesso. Crianças eram puxadas pelo braços, pois não perceberam que era hora de andar. Um segundo pelotão vem logo atrás, desorganizado, correndo e desviando. Seguram o tempo do sinal verde. Para todos dos pelotões que atravessaram a grande via, o destino os aguardavam além do horizonte, o confronto se daria dentro de suas casas e trabalhos. Ali onde cada um luta com as armas que tem.
Já na rodoviária, Eli aos poucos começava a perceber a música da rádio pública. Antes mesmo de escutar seu ouvido já procurava. Geralmente não gostava das músicas, mas sabia as letras e cantava junto. O que importava era poder cantar e não ser ouvida no meio da multidão em guerra.
Na plataforma de cima a realidade era outra. O semáforo ali se transformava em sugestão, pois maioria das pessoas atravessava independente da cor do sinal, muito despreocupadas com a frustração e com as buzinas dos motoristas. Ali percebemos que não é o tamanho nem a velocidade dos carros que faz os motorizados mais poderosos, a questão é a quantidade de carros e a quantidade de gente disputando o espaço da rua. Se as pessoas atravessam o carro tem de parar.
Nesse início de noite, junto à sensação de libertação ao sair do expediente, Eli observava toda essa dinâmica da cidade e se sabia parte dela. Nesses momentos sentia como se a revolução já tivesse acontecido, como se ela acontecesse a toda hora e só os poderosos ainda não se dessem conta. Vivemos aqueles segundos das crianças que se machucaram e ainda não perceberam. Os olhos se distraem esperando a mudança da luz no sinal. Em breve, não se sabe quando, chorarão não da dor, mas do choque assim que virem o sangue pingar. .

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A voz surgia após alguns minutos caminhando até o ponto de ônibus depois do trabalho. Narrava e enquadrava sua vida naquele espaço junto das pessoas que também começavam a fazer seu trajeto pra casa e compunham a paisagem cotidiana no crepúsculo. A voz observava também seus passos firmes em delicadas sapatilhas, figura que lembrava uma velha chinesa e sua magnífica força em um corpo que resiste no atrito do andar em um solo ainda mais duro.
Em meio ao barulho as pessoas dizem que não conseguem ouvir seus próprios pensamentos. Também nesse caso a voz surgia por conta do silêncio, mas que emergia de dentro. Por alguns instantes conseguia não pensar em nada, deixava a narrativa se guiar pelas sensações que o mundo oferecia. Queria que a narradora continuasse ali para sempre, pois lhe dava segurança. Nada a fazia se sentir tão plena do que narrar sua própria história.
Curiosa a relação entre a voz e os espaços. Durante o sexo, vez ou outra a voz surgia trazendo o mundo e seus personagens para o quarto, o que a fazia gozar com certa sede de vingança.
Em casa conseguia ouvir a narrativa quando passava um tempo reclusa. Todas as vezes quando entrava no banheiro, sem que ao menos percebesse, os pensamentos mais obsessivos a trancavam no cubículo do box ou na frente do espelho. Tudo o que não tem coragem de sair era remoído ali. Quando criança no caminho da escola para casa, possuía pensamentos repetitivos conforme os locais que passava, o desenho da rachadura na calçada, o padrão da grade do portão, o nome engraçado de uma flor, o olho morto de um cachorro.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Era um sábado de manhã cedo, eu tomava café na cozinha enquanto as crianças dormiam. Fazia um mês que meu casamento finalmente desmoronara após um longo período de pequenas erosões. Um mês da nossa última briga, ele finalmente admitira que vinha me traindo e foi quando descobriu, para sua surpresa, que as semanas em que viajava a trabalho na verdade vinham sendo aliviantes para mim, pois eu não precisava esconder minha indiferença.
Minha filha de 6 anos levantou primeiro, não a escutei e ela me viu fumando. Não havia como disfarçar que havia algo errado acontecendo. Ele disfarçava melhor, era mais fácil, pois só aparecia quando estava tudo sob controle, nunca era pego de surpresa. Os olhos dela me fitaram com preocupação. Os outros dois mais novos, acostumados à rotina sem o pai, apenas se apegaram mais mim. Ela não, até nas reuniões do sindicato ela costumava ir com ele.
Mas era 1994 e a inflação conseguia ser o maior de meus problemas.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Faz um ano

Abriu o chuveiro. Um cheiro leve de barro subiu quando o corpo foi molhado. A luz fraca deixava o ambiente aconchegante. Nos dedos que lavavam a cara sentia as feridas secas cujas cascas demoram a amolecer. As costas relaxavam enquanto os pés firmes no chão sustentavam as inchadas pernas.
Já faz um ano. O mundo de fora muda mais rápido que o de dentro.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poesia direta

O clima dessa época castiga aqueles que aceitam o convite de prolongar a conversa ao relento sob o pretexto de uma última dose. No dia seguinte a reação é desproporcional. A cabeça pesada e uma ardência nas narinas a cada respiração.
Ar seco, leves sopros gelados. Parece que nada acontece na cidade. Ilusão causada pelo fato de ao redor o silêncio ser acompanhado apenas das notas agudas dos pássaros e pelo longo ronco dos motores pesados na via.

(A beleza salvará o mundo de que?)

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Se Brasília é uma cidade sem esquinas, o que mais tem é encruzilhada. Em um lugar onde as curvas possuem, antes de tudo, um sentido estético, a gente só confia pelo ângulo reto. O golpe mais curto e certo é diagonal. Nossa arma, um compasso.

terça-feira, 12 de março de 2013

o automóvel de Clarice

Suzana pensava sobre as palavras de seu antigo companheiro: por que continuar naquele trabalho que a matava todo dia um pouco por dentro, que não trazia crescimento em nenhum aspecto da sua vida? - quando o celular vibra com uma mensagem do editor dando o retorno do último texto, dizendo que tomara partido, que muito crítico e que fugira do tema. Um suspiro.
Ela estava exausta no banco de passageiro. Era uma quinta-feira e ela havia sido demitida no início do mês, mas precisava entregar ainda alguns trabalhos. Chovia e o trânsito congestionava. Ao lado da sua janela um ônibus, muita gente que demoraria ainda para chegar em casa e que amanhã faria novamente o caminho de ida e volta. A amiga motorista interrompeu o devaneio dizendo como era bom estarem ambas solteiras, que estava descobrindo muito sobre si mesma e argumentou como um relacionamento de longo tempo acaba se tornando opressivo e de como a ideia de amor para vida toda é um absurdo que ilude e aprisiona as pessoas
Ela perdera o emprego e o namorado e segundo as pessoas, ela tinha sorte por isso, apesar de não sentir bem por nenhuma das duas coisas. Então agora era livre e devia dedicar algum tempo a si mesma, descobrir novas possibilidades na vida, ler os livros atrasados, desenvolver suas inclinações artísticas e intuições. Sempre se sentia mais perto de si quando escrevia, mas há tempos não fazia isso e, na verdade, não estava nenhum pouco a fim de retomar. Era a primeira vez que ela via o fim das coisas sem se empolgar com a possibilidade de um recomeço.  Há muito ela não tinha tempo só para si e desaprendera a ficar sozinha.
A gente não sabe viver, a gente se acomoda, sabe? - dizia a amiga, continuando suas descobertas das verdades da vida. - Se todos soubessem que não precisam se submeter a essa vida de robô... ou melhor dizendo, de cachorro, né? Porque máquinas não podem ser humilhadas, nem se resignam como a gente...
Sem dar sequência ao assunto nossa personagem observava o ônibus e a fila de carros ao seu lado e se perguntava por que aqueles trabalhadores continuavam em seus empregos opressores; por que pessoas insistiam em ter relacionamentos duradouros; por que esforçavam-se tanto para alcançar a felicidade, se ao que tudo indica, é ilusória? Produzindo, reproduzindo-se e consumindo, apenas. Ela era incapaz de acreditar que eram todos simplesmente acomodados e alienados. "Há de existir alguma verdade ali". Desconfiava da filosofia da amiga sobre a necessidade da descoberta de si.
"Quer dizer então que tenho essa oportunidade agora, que posso, e logo, devo mergulhar com tudo, com medo, com tudo, dentro de mim, vivendo a liberdade da busca do que sou. Devo me arriscar nessa vida, me desapegar do banal, acreditar em mim, cuidar de mim, escrever sempre, escrever mais, seriamente e intensamente".
Lembrou que Macabéa cintilava na estante de seu quarto, pedindo um novo encontro. "Não somos igualmente livres, esse é o problema”. Na verdade ela queria estar ali no ônibus, esmagando seu próprio eu no coletivo. Haviam dito que era fácil, que esse "eu" que pode ser facilmente dissolvido na multidão, alienado na frente da TV, eclipsado em uma relação romântica. E ao mesmo tempo é tão valioso, a ponto de você ter o dever moral de dedicar-se a ele. "O maior erro de Macabéa foi achar que ia ser estrela. Por isso morreu - atropelada - porque não tinha o direito exercer sua essência e particularidade. Como ser escritora em um país de datilógrafas analfabetas?".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Justiça amadora

A pela morena num tom de caramelo. A cara pequena redonda, os traços finos, os olhos puxados, expressando uma descendência indígena, assim como seus dentes miúdos escondidos pelos lábios longilíneos. O cabelo comprido e liso, de cor amarelo queimado, ora tingido em uma tentativa amadora de disfarce. A história toda passa por amadorismos, porque é um submundo, de consequências sérias, mas sem muitas garantias. A categoria amadora corre sempre mais riscos.
A princípio essa história não me trouxe reações significativas, mas agora não consigo tirá-la de mim. Sua mente saudável, leitor, provavelmente vai achar que essa história se trata de um caso limite, daqueles raros que ajudam disseminar os estereótipos. Sim, você vai usar de um truque mental pra minimizar o impacto. Assim como aqueles que adotam gatos para aliviar o peso das mazelas sociais.
As condições desfavoráveis são tantas que parece ficção, uma síntese das piores possibilidades que podem acontecer em uma vida. É um tanto desanimador tentar contar porque ou o leitor tenderá a minimizar os fatos ou não terei o devido rigor e talento e a história ficará parecendo uma sinopse de um filme dramático e ruim. 
Escrever sobre a vida de alguém é algo um tanto quanto complicado, ultraje desde o início, porque é falar de algo que não tenho propriedade, embora não há como negar que hoje essa história seja parte de mim. Seja lá a quem pertença essa história, de qualquer maneira compartilhá-la com um público indefinido, é uma decisão delicada. Então eu peço dê o seu melhor - imagine-se entrando em um templo, isso ajuda.
O nome dela ainda é Andressa, ela morava em um lar de palafitas, na periferia de Manaus, onde todos dormem em redes e a assistência social tem dificuldades de chegar em dias muito chuvosos. Morou ali com mais 4 irmãos mais novos, uma irmã mais velha, a mãe e o padrasto. O pai morava em outra cidade, não o conhecera – um dia, há uns anos ele aparecera, é verdade, mas Andressa não quis saber dele. O padrasto era alcoólatra, se drogava às vezes, talvez com menos frequência do que batia em sua mãe. Nas mãos deste mesmo homem a irmã mais velha sofrera violências sexuais frequentes, por isso ela obrigava Andressa a dormir de calça jeans. Andressa não entendia o comportamento da irmã, até o dia em que entendeu, quando a irmã foi embora de casa. E então ela, que fazia aula de danças no projeto de sua comunidade, passou a ser alvo de ciúmes e o padrasto a proibiu de dançar.
Um tempo depois Andressa foi morar em um abrigo para meninas, ali pôde estudar, ter uma vida mais tranquila. Foram bons tempos, mas não era sua família e então um dia ela saiu. Morou um tempo com sua irmã e logo voltou a morar com sua mãe. Ali no bairro onde nascera fizera bons amigos na infância que agora com a idade que tinham, estavam se tornando respeitáveis. Organizaram-se e conseguiram se estabelecer no mercado de revenda drogas. Quase não havia pessoas do sexo feminino trabalhando nisso e Andressa se interessou. Segundo ela as mulheres nesse meio possuem uma aura de respeito pela coragem e porque disfarçam bem, não chamam atenção os policiais. A partir de então o padrasto nunca mais tocou nela. Em sua frequentes crises continuou batendo em sua mãe, mas Andressa não tolerou por muito tempo, enfiou a tampa da panela de pressão no nariz dele. Seus amigos perguntavam por que ela não deixava que dessem um fim nesse cara, que se ela quisesse era só pedir, e que afinal, ele devia as drogas que consumia. 
Aos 15 anos ela engravidou de seu namorado, um bom rapaz ali do bairro. A família dele praticamente adotou Andressa e a menina recém-nascida. Mas isso durou cerca de um ano a mais, Andressa estava por demais envolvida com sua turma de amigos, onde conseguia trabalho e reconhecimento - além do mais ficaria tranquila enquanto sua filha estivesse longe do padrasto. Como toda boa pessoa de confiança, Andressa não gostava de se drogar, usava cocaína apenas quando tinha que virar a noite trabalhando, preparando as mercadorias. Com dinheiro conseguia ajudar a família e comprar algumas roupas e maquiagem para sair à noite nas festas da cidade.  
Passou a namorar seu colega, Antônio, um dos líderes do grupo. Até que um dia um grupo bem maior, que comandava o tráfico em outros bairros da cidade resolveu tomar aquele também. O casal estava na rua em um fim de tarde quando um dos cinco atiradores de elite do grupo rival - e que por um acaso era primo de Andressa - disparou meia dúzia de tiros contra Antônio. Chegou ao hospital quase morto. Andressa vela todo o período de coma dele, mas ainda depois de acordar ele ainda fica alguns meses internado pra se recuperar (quase) por completo. Nesse tempo Andressa ainda o visitava, mas ela, assim como quase todos do grupo, agora trabalhava para o outro cara.
Se esse cara, conhecido como Peixe, tinha alguma desconfiança dela, por ser a companheira de Antônio, podemos dizer que o quadro se reverteu quando em uma noite Andressa, pega por policiais e torturada, até se cagar de dor, não abre a boca. Sabia que provavelmente teria um fim pior caguetasse, como já havia visto acontecer com outros. Ela mesma serviu-se de isca pra armar morte de alguns deles. Como qualquer um do tráfico, ela conhecia casa, carro e barco do homem que mandou matar seu namorado e após seu ato heroico diante da policia, ela passou a frequentá-los cada vez mais. Mas também ficara mais presa, é verdade. Já não podia visitar o namorado que havia saído do hospital, pois a ausência dela seria rapidamente notada no bairro. E ele não podia botar os pés naquele território se quisesse continuar vivo.
Mas um dia "bateu uma loucura", como gosta de contar, e ela foi encontrá-lo. Após algumas semanas descobriram onde estavam vivendo e um dos matadores de elite apareceu no muro da casa. Sem sorte, eis que quem morre é ele. Com menos sorte ainda para Andressa e Antônio, o corpo morto era o melhor amigo e conselheiro de Peixe. Andressa sabia que ao sair do bairro sem avisar, ficara em uma situação difícil, agora então, o caminho de volta se fechara como mata virgem. Ninguém ia querer saber até que ponto ela tinha armado tudo, todos tinham motivos para desconfiar dela, inclusive Antônio.
Ao saber do assassinato de seu irmão, o chefe perdeu a cabeça: mortes injustificadas começaram a ocorrer na comunidade. Os moradores do bairro, que antes tinham boa relação com Peixe, já estavam revoltados. Andressa, agora com 17 anos, foi buscar ajuda com as mulheres do abrigo onde morara. Vivia escondida ali, pois meninas passavam na rua e comentavam que estavam procurando-a, rapazes disfarçados entravam no abrigo para tentar encontrá-la  Seu primo, da elite do grupo de Peixe, avisou a mãe de Andressa, de que a prima seria a próxima. 
As profissionais do abrigo, sem poder garantir a segurança de Andressa por muito tempo, chamaram a polícia, desta vez a adolescente estava disposta a contar o que fosse preciso. Andressa esperava um novo filho. A delegada, recém nomeada, foi colher seu depoimento e logo que entendeu do que se tratava, teve medo de morrer ali mesmo. Exaltada, ligou o carro e mandou a menina entrar no porta-malas. Andressa teve de ser segurada para não estapear a doutora...
O que me impressiona nessa história é que Andressa foi a única a gritar no meio de condições tão opressões e a perceber que quando se grita, te oprimem ainda mais.
Penso em sua irmã que viveu no mesmo ambiente que Andressa, viu os irmãos doentes passando fome, sofreu diversos tipos de violência e fugiu de lá, casando-se nova. De que adianta superar a falta de dignidade se não se faz justiça? Sua mãe, além de apanhar e não se defender, se recusava a aceitar as denúncias das filhas sobre o que o padrasto fazia com elas. Apesar de tudo o que vira, o que fez Andressa sair de casa e ir parar no abrigo pela primeira vez, foi justamente a falta de posicionamento da mãe que se recusava a testemunhar a denúncia da filha contra seu marido. Elas brigaram no meio da rua, Andressa gritou que ele era um pedófilo, apanhou e fugiu. Hoje Andressa entende melhor sua mãe, mas não é como ela: tinha suas brigas com Antônio, mas revidava e batia bem na cicatriz de bala mal fechada em sua barriga. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

docilidade


sempre foi possível ser doce e sentir
desprezo
indiferença
revolta
decepção

a docilidade só existe apesar de tudo.

a gente sente raiva mas resiste à violência e à repressão,
a gente julga mas resiste à inveja e à intolerância
a gente ama mas resiste à carência e à dominação

e se em algum ponto a gente a perde, como recuperar a docilidade?
na cidade cara
no sertão árido
no morro sujo
na rua fétida
no trabalho humilhante
na pancada do ônibus
na realidade dura e seca
de um coração partido

ainda que houvesse essa bela lua todas as noites
ainda que houvesse uma boa companhia
ainda que houvesse como sonhar sozinho


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Oráculo

Depressivos são esses dias antes das viagens, das mudanças de contextos. A gente pisa no freio e a cabeça leva um baque, as coisas pedem outra ordenação, deslocam-se tempo, identidade, qualquer conceito abstrato. A adaptação é aleatória. Fico esquisita e só então vou procurar saber por que. Nunca sei, não acredito em explicação causal a posteriori.
Resta escolher a explicação mais confortável e pronto. A não ser que você seja como todo mundo e escolha os motivos casquinha de ferida pra fazer auto-análise antes de dormir. A esquizofrenia do pai, a insanidade dos outros... Mas não é só isso, a gente sempre precisa de uma tríade causal, enquanto ela não completar não há nada que nos faça dormir. Levanto da cama em em busca do terceiro elemento. Acendo o cigarro, ele acaba e a palavra é insuficiência.
Escovo os dentes. Volto pro quarto, tiro a roupa num fôlego. Há vários livros no quarto, a maioria semi-lida. O único entre eles que me instiga é um dicionário.
Insuficiência: escassez; incompetência.
Agora, mais do que nua, revelada.
Escassa e incompetente, embora definida, continuo a leitura e encontro uma narrativa de definições, pra cima e pra baixo. Insucesso, insuflar, insultar, insumo, insuportável, insurreição. E já ébria de sono, uma conclusão surreal a qual segue o sonho: o dicionário fazendo as vezes de um oráculo.



terça-feira, 25 de outubro de 2011

Três tigres tristes

Há menos de 10 anos atrás quase todo domingo minha família almoçava no restaurante na avenida perto de casa. Eu já estava há uns anos na adolescência, mas meus irmãos estavam se iniciando nela; isso mais domingo, família e rotina, era a receita certa para conseguir três irmãos com cara blase e sem fome. Minha mãe queria animar a mesa, só que ela achava tudo muito interessante, o que só irritava a gente, além é claro de chamar a gente por um apelido infantil. Pra completar nenhum dos três gostávamos de nenhuma sobremesa que ofereciam como cortesia no restaurante. Jã minha mãe adorava o pudim de pão e fazia "humms" ao saborear aquela massa de pão velho com leite condensado e calda de caramelo. Até que num desses dias o garçon que sempre atendia a gente apareceu com três Chicabon e conseguiu arrancar sorrisos e sorrisos, como mamãe há muito não conseguia. Depois disso, sempre que voltávamos lá ganhávamos o sorvete e podíamos até escolher o sabor.
Foi uma ocasião em que aprendemos algumas lições: primeiro que existe gentileza no capitalismo e por tanto, podíamos parar de fazer aquela cara de quem acha que o mundo não faz sentido, segundo que éramos crianças chatas e mimadas, e por fim que se comêssemos da sobremesa grátis jamais teríamos ganho sorvete de chocolate.

http://www.youtube.com/watch?v=IS-J9qagGZg